Caminho do Arcano Maior 'O Carro'

 Arcano Maior VII do Tarot de Crowley
Regência : Câncer


Tornamo-nos seres sociais em Libra no Caminho do Ajustamento. Aprendemos a compartilhar e lidar com o “outro” em harmonia e alteridade. No Caminho anterior, O Eremita, o signo de Virgem estipulou a capacidade pragmática que o observador quântico desenvolve na sua jornada individual. Tanto o indivíduo como a interação dele com os outros demandam a memória de uma vivência. Todos nós partimos de uma tradição, costumes e outras bagagens que acumulamos a partir de nossas origens, sejam elas familiares, municipais, estaduais ou nacionais. A ascendência familiar também é importante, pois vai contribuir com referências culturais sobre as quais definimos nosso comportamento e identidade social futura. O signo de Câncer é arquetipicamente voltado à memória e às origens, a princípio. Ele rege naturalmente a quarta casa do nosso mapa natal também conhecido como Nadir ou Fundo do Céu e encontra-se na base do mapa.
A partir do acúmulo de memórias e registros ao longo de nossas vidas – sejam de encarnações anteriores ou da atual – planejamos e construímos nosso futuro com todos os sonhos e metas estabelecidas pela experiência adquirida. O Fundo do Céu representa as experiências do passado, incluindo a família original ou atual, nosso lar e até o país. Dependendo do signo e dos astros que encontramos na quarta casa, podemos reconhecer a qualidade de nossas relações familiares e que tipo de vibração energética irá nos impulsionar ou não, para nossos desafios futuros. Afinal, qualquer astro que estiver na casa quatro tem a possibilidade de exercer uma oposição ao Meio do Céu que recebe aspectos de planetas assim como o Ascendente. Note que esta interação entre passado e futuro é a mesma que vimos no caminho anterior entre “Eu X Outro”, exigindo interação em um nível complementar. Por isto que Câncer pertence ao grupo dos signos cardinais, ou seja, aqueles que iniciam uma estação, irrompem num novo paradigma assim como o Solstício de Inverno (HS) ou Verão (HN).
O conteúdo de nossas quartas casas, ou seja, a alquimia entre signo, planetas presentes e planeta regente da casa irá contribuir para nosso salto quântico que é a dinâmica que nos move rumo a futuras realidades e situações que abrangem nossa personalidade madura, mais evoluída e bem sucedida em seus propósitos. Por isto que o recolhimento e a inércia provindos da negação em assumir o controle de uma nova etapa de nossa vida nos conduz ao caos atemporal quando as ilusões e fugas nos desconectam da passagem do tempo e dos ciclos evolutivos.
Câncer é um signo atribuído ao Elemento Água e, um dos fatores que podem degenerar no comportamento escapista é a sensibilidade e a vulnerabilidade emocional. O caranguejo – animal simbólico do signo – pertence à categoria dos crustáceos, espécie de animal que possui uma carapaça duríssima para proteger o interior tenro e macio. Esta necessidade de proteger-se contra ameaças exteriores em seu ninho ou lar reconhecido também contribui com o arquétipo da maternidade em Câncer. Na verdade, a mãe pode ser considerada nossa progenitora, nossa pátria ou nosso planeta Terra ou Gaia. Por isto Câncer associa-se com origens, memória e, finalmente, com o arquétipo da Grande Mãe encontrado em todas as mitologias. A mãe protege, alimenta e educa seus filhos para o mundo, para que eles tenham a oportunidade de colapsar suas próprias e únicas realidades futuras, sem ter que permanecer eternamente deitado em um berço, seja esplêndido ou não. Ceres, a deusa da agricultura e uma das representações da Grande Mãe teve que abrir mão de sua filha Perséfone que foi raptada para ser esposa de Hades e rainha dos Infernos.
A Era de Câncer, cerca de 8 a 6 mil anos a.C., foi uma época de dominação feminina, quando seus mistérios eram inexplicáveis como a gestação, por exemplo. As mulheres eram então consideradas seres míticos com poderes extraordinários. Ísis, a deusa mais destacada e importante da mitologia egípcia, representa com mais perfeição este poder feminino. Salvou seu marido Osíris da morte engendrada por seu irmão Seth. Vestindo-se de simples camponesa, chegou até o delta do Nilo onde o esquife de Osíris estava alocado na raiz de uma árvore sagrada para o povo que ali habitava. Para salvar os seus restos mortais, Ísis teria que convencer o rei e a rainha locais da necessidade de derrubar aquela árvore. Para infiltrar-se no reino, Ísis estrategicamente começou a trabalhar como serva e cuidadora do bebê real primogênito. Alimentou a criança em segredo com seu leite divino. Um dia, surpreendida pela rainha que viu seu filho ser alimentado pelo leite que parecia mais como um néctar divino, Ísis revelou sua verdadeira identidade e pediu que recuperassem o corpo de Osíris junto às raízes da árvore. Felizes e agradecidos por terem um filho com poderes sobre humanos devido à alimentação especial, o rei e a rainha realizaram a vontade de Ísis. Detentora da magia de Rá, Ísis conseguiu fazer com que Osíris retorna-se à vida com a finalidade de conceber Hórus, o filho do casal e deus da Nova Era.
Ísis representa o poder feminino de Câncer, signo cardinal de Água. Mesmo sendo de polaridade Yin, voltado às emoções e à afeição, Câncer é um signo cardinal, o que prova a capacidade não só mágica mas estratégica de liderança deste signo.
O Arcano maior “O Carro” é bem preciso quanto à capacidade canceriana de iniciar um Solstício. O cavaleiro em sua armadura dourada mostra total domínio da sua Vontade e o reconhecimento de seu Self (Sol). Na altura do seu chakra básico, ele segura um disco nas cores vermelha e azul: ele controla seus instintos e emoções e, este controle produz uma energia balanceada entre os instintos impulsivos (vermelho) e a calma meditativa (azul). Mas a carruagem vermelha enfatiza sua coragem e poder para ir aonde bem entender. As quatro figuras um tanto quanto bizarras que lhe servem de “cavalos” ou força motriz para o Carro mover-se são combinações entre cada uma das partes da esfinge de Gizé: o rosto humano (Aquário) com os pés da fênix (Escorpião) e assim por diante. Estas quatro divisões da esfinge já apareceram no Caminho do Universo, primeiro realizado neste trabalho.
Particularmente, a figura central deste arcano lembra-me Arjuna em sua carruagem pronto para entrar em guerra contra seus inimigos que, por sinal, também eram seus parentes. Inseguro quanto ao próximo passo, Arjuna recebe o aconselhamento de Krishna, o deus herói solar da mitologia hindu. Estes aconselhamentos e orientações compõem a nata dos ensinamentos indianos no Bhagavad Gita.
Quando nos sentimos seguros, conectados ao passado e às memórias como grandes conselheiros, mas não apegados às lembranças como escapismo do presente, somos capazes de avançar com destreza e integridade. No topo de sua cabeça, o cavaleiro tem um caranguejo lembrando o signo de Câncer e simbolizando a proteção divina em seu chakra coronário. O toldo azul ondulado da carruagem tem a mesma função protetora e nos remete a outra deusa materna egípcia, Nuit, bastante comum em imagens do Antigo Egito como uma mulher azul envolvendo todos tal qual uma abóboda celeste noturna. No toldo está escrito Abrahadabra, fórmula mágica do novo Aeon segundo o Livro da Lei de Aleister Crowley para o salto quântico do cavaleiro dourado, de Arjuna e até nosso em direção a novos conceitos e paradigmas da Era de Aquário.
O Caminho do Carro percorre a conexão entre a esfera da Ação, regida por Marte e a da formação arquetípica, regida por Saturno. Entende-se o envolvimento de dois planetas muito desafiadores para a astrologia, pois demandam cautela e muita atenção quando se enfrentam por aspectos em ciclos temporais. Marte é a ação de caráter instintivo que precisa de muita sabedoria e equilíbrio para ser acionada. Já se sabe que os caminhos anteriores relacionados à esfera da Ação, Pendurado, Vontade e Ajustamento, demandam intuição, propósito e harmonia para se conectarem à esfera marciana. O Carro completa este conjunto de caminhos , mas agora na direção a um planeta formativo que estabelece regras. O Carro está pronto para isto, para entender a construção de nosso Universo pois transporta todas as potencialidades da memória e das experiências.

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