O Caminho da Arte : Arcano Maior XIV do Tarot de Crowley

 Sagitário e a Arte Alquímica da Integração

O Caminho da Arte – leia-se “Arte Alquímica” - é regido pelo signo de Sagitário, responsável pelo mais profundo equilíbrio entre os instintos, a mente humana e o divino. Na tradição yogue isto representa o desenvolvimento da criatividade por meio de saltos quânticos entre as etapas tamas (condicionamento comportamental e instintivo), rajas (criatividade situacional) e sattva (criatividade fundamental ou iluminação). Por isto que é considerado popularmente o signo da sabedoria, da fé ou da Filosofia. Seus instintos de sobrevivência e de adaptação à natureza (tamas) são simbolizados pela metade equina do centauro, ser mítico que figura como símbolo de Sagitário. Sua metade humana está conectada à inteligência e, consequentemente, à criatividade situacional capaz de “construir impérios”. A flecha direcionada para o alto une as naturezas humana e animal com o propósito superior intuitivo da criatividade fundamental contatando-as com o divino em uma hierarquia entrelaçada em possibilidades de fusão com a Consciência Una.
Sagitário é o signo da direção, sua energia arquetípica conduz o ser pelo caminho da senda espiritual por meio do aprendizado sem limites. Gêmeos, seu signo oposto complementar conduz ao aprendizado limitado e fundamental com o uso da mente como recurso principal para aquisição de informações e cultura. Sagitário alquimiza as informações e as afirmações dúbias unificando a dualidade geminiana, pois no mundo do arqueiro só existe fé, a verdade e as leis baseadas nesta verdade. O conhecimento sagitariano é ilimitado, vai-se ao longe para adquiri-lo, a curiosidade geminiana se transforma em aventura, a mente dá lugar à intuição e ao espírito, afinal, Sagitário é um signo pertencente ao elemento Fogo. A auto-consciência do outro signo de Fogo, Leão, dá lugar à consciência focalizada rumo a metas mais universais.
Por isto que Quíron é o mito que melhor descreve o arquétipo sagitariano. Ele é filho de Saturno com a ninfa Filira que, para tentar fugir do assédio do Senhor do Carma, transformou-se em uma égua. No entanto, Cronos instantaneamente também tomou a forma de um garanhão e conseguiu realizar seu intento. Nascido desta união, Quíron foi rejeitado pela mãe logo cedo, pois nasceu metade homem, metade cavalo. Adotado pelo deus Apolo, aprendeu com voracidade tudo o que o deus tinha a lhe oferecer: artes, música, medicina e outra série de habilidades. Tornou-se um sábio e mestre de outros deuses e semi-deuses, dentre eles Hércules que acidentalmente no meio de uma briga com outros centauros feriu Quíron na coxa com uma flecha envenenada com o sangue da Hidra de Lerna. O ferimento é mortal, mas Quíron iria sofrer as suas dores eternamente sem cura por ser imortal. Diante disto, ofereceu a própria imortalidade a Prometeu que também sofria seu castigo por ter provocado a ira de Júpiter concedendo o poder do fogo aos humanos (Caminho da Estrela). Este sacrifício permitiu que Prometeu continuasse na sua senda de auxílio aos saltos quânticos criativos da humanidade. Então, Júpiter homenageou o mestre do Olimpo transformando-o na constelação do Arqueiro após sua morte.
Este mito também demonstra uma das “sombras” sagitarianas. A batalha entre Hércules e os centauros ocorreu durante um de seus 12 trabalhos, a captura do javali de Erimanto, quando ele recebeu a orientação de “guardar tempo para descanso e alimentação”. No entanto, ao encontrar alguns centauros amigos resolveu ceder a seu desejo e beber vinho de um barril que deveria ser aberto apenas na presença de todos os centauros. Hércules e seus amigos perderam o controle e se embriagaram. Quando os demais centauros chegaram e perceberam que eles tomaram todo o vinho ficaram furiosos e a batalha teve início. A vítima foi o melhor dos centauros, Quíron. Este descontrole, abusos e exageros ocorrem quando Sagitário está apenas vibrando em seus instintos, ou seja, sendo controlado pelo próprio tamas. Sagitário carmicamente tem acesso a todas as orientações criativas para alcançar metas longínquas como era o caso de Hércules e sua tarefa. Mas o desequilíbrio provoca destruição da combinação perfeita entre as três partes do centauro.
A embriaguez e a briga representam Sagitário na base das ações condicionadas, quando está apenas usufruindo energeticamente as forças dos chakras raiz e básico. O sacrifício da imortalidade de Quíron para libertar Prometeu, representante arquetípico aquariano do amor fraterno e universal, demonstra a capacidade evolutiva de Sagitário em desenvolver seus chakras superiores: a criatividade situacional do plexo solar, até chegar à consciência grupal utilizando sua conexão com o divino e a criatividade fundamental do chakra cardíaco, laríngeo frontal e coronário.
O Caminho da Arte ou da Temperança - nos tarots mais tradicionais - percorre a distância entre a Lua (Plano Astral) e o Sol (Self). Ele une esferas de energias opostas:

. Lua (Plano Astral): energia Yin, receptiva, introspectiva, inconsciente, emocional, sentimental, sensível, instável;

. Sol (Self): energia Yang, ativa, extrovertida, consciente, realizadora, estável, essencial, centralizadora.

Esta união torna-se clara no arcano observando o ser andrógino misturando o fogo (Sol) com a água (Lua) em um cadinho. Esta mistura, combinação ou intercâmbio é o produto do Casamento Alquímico iniciado no arcano VI, os Amantes, onde os elementos e personagens estavam separados. A união entre a Imperatriz e o Imperador dão origem ao ser andrógino com características da deusa Diana de Éfeso, representação mais voltada à fertilidade com vários seios do que a virginal Artemis grega. Esta fertilidade é o resultado da união dos princípios feminino (Lua) e masculino (Sol), que pode ser interpretada como a união do Entendimento (Plano Astral) com a Vontade (Self). Desta combinação surge um novo ser mais completo e criativo pela subida da flecha a partir do cadinho até o arco-íris que envolve os ombros da personagem na carta simbolizando a missão sagitariana de unir os chakras inferiores aos superiores conectando-nos ao divino (sattva), com a iluminação das descobertas. Mas, para isto, a simbiose deve ser perfeita como observamos o caso do leão e a águia que trocaram de cor, portanto de princípio energético. Fica evidente que as operações alquímicas simbólicas com metais são apenas alegorias para demonstrar algo muito mais profundo que é a união das dualidades com o objetivo de cura. Por isto que o arco-íris projeta-se atrás da figura com os dizeres “VISITA INTERIORA TERRAE RECTIFICANDO INVENIES OCCULTUM LAPIDEM” (Visite o interior da terra: retificando encontrarás a pedra oculta.” A “pedra oculta” também é chamada de Medicina Universal pois encontra-se no interior, na essência do ser e se projeta como energia vital quando combinamos os principais elementos alquímicos Enxofre (elemento Fogo), Mercúrio (elemento Ar – transmissão) e Sal (elemento Terra) formando o Solvente Universal que se encarrega de criar, estabilizar e reciclar a energia vital na Natureza.
Um grande exemplo deste processo alquímico é o reino vegetal que, a partir do mineral (metais, sais) produz vida utilizando a chuva e o Sol (fogo, enxofre). “A chuva é formada através de um processo lento e suave, e é garantida efetivamente pela cooperação do Ar, o qual é o resultado alquímico do casamento entre o Fogo e a Água.” (Livro de Thoth).
No cadinho também encontramos o símbolo alquímico da putrefação, o corvo pousado em um crânio. Este “caput mortuum” alerta para a etapa alquímica que corresponde ao estado tamas de condicionamento, sem criatividade ou cultivo, usando um termo mais voltado à agricultura.
O Caminho da Arte estabelece o ciclo da energia vital e da criatividade fundamental unindo os princípios opostos. Esta união entre o “sangue ígneo” e o “gluten” também é a combinação entre o esperma (Yang) e o fluido vaginal (Yin) despertando a energia da Kundalini que une os chakras subindo dos inferiores aos superiores provocando um estado de êxtase e iluminação.
Este caminho também equilibra e une os caminhos da Morte (Escorpião) e do Diabo (Capricórnio). Sagitário é um signo mutável e intermediário entre Escorpião e Capricórnio. Ele adapta o resultado das transformações profundas dos padrões condicionados e não cultivados e prepara a Natureza e a Humanidade para a criatividade fundamental na conquista da visão supramental do caminho do Diabo.

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