O Caminho do Pendurado : Arcano Maior XII do Tarot de Crowley

 O Sacro Ofício Supramental


Eu sou a Água da Vida.”
Paul Foster Case, 'The Book of Tokens'

Qualquer ideia de que a natureza humana é mais forte que a Mãe Natureza, ou o intelecto do homem é a função dirigente de toda a vida, contraria a Grande Mãe e, por fim, o réu humano também. Em revide, a deusa agarra o filho impudente pelos calcanhares e enfia-lhe os miolos vaidosos de novo no ventre de sua terra úmida”.
Sallie Nichols, 'Jung e o Tarot – Uma jornada arquetípica'
Netuno é o segundo planeta transaturnino que estudamos nesta jornada evolutiva. O primeiro foi Plutão, no caminho do Aeon, e já pudemos sentir o poder transformador que vem das profundezas da nossa psique. Netuno também opera no mundo invisível do nosso inconsciente, porém de forma muito mais sutil e quase imperceptível. Se estamos muito desconectados do mundo quântico ou espiritual e envolvidos totalmente com as questões do mundo material, sua ação é ainda mais imensurável. Só percebemos suas consequências quando já estamos mergulhados em situações onde nos sentimos abandonados, sem entender “como fui chegar a este ponto?”, ou seja, enredados nas armadilhas em que nosso karma assume o controle. No entanto, sentimos como que traídos por uma conspiração oculta. Na verdade, nós mesmos provocamos tal situação tendando fugir do nosso karma traindo a nós mesmos, mas a sincronicidade às vezes nos joga de cabeça para baixo tal qual a figura do Arcano 12 do Tarot para nos forçar a ver a realidade sob uma nova perspectiva.
A princípio considerado como um corpo que alterava a órbita de Urano, este planeta foi visualizado pela primeira vez em 1846. Arquetipicamente, sua descoberta começou a conduzir a Humanidade a entrar em contato com o lado invisível do mundo aparente:
  • Allan Kardec estava em plena atividade pesquisando e fundamentando os alicerces de uma nova religião, o Espiritismo, que prega a imortalidade da alma e a reencarnação;
  • O abade francês Alphonse Louis Constant deixa o dogmatismo cristão para tornar-se um dos maiores ocultistas do século sob o pseudônimo Eliphas Levi, que inspirou os magos Papus e Aleister Crowley a aprofundarem o conhecimento das ciências herméticas e esotéricas;
  • A busca pelo oculto, invisível e inexplicável também teve seus reflexos na psicanálise de Freud e na psicologia profunda de Jung abrindo as possibilidades da psicologia meramente comportamental a partir da segunda metade do século XIX;
  • E, finalmente, já no final do século, o físico Max Planck expôs sua constante que definia a existência do “quantum”, ou seja, da partícula subatômica, o que revolucionaria não só a Física, mas também a visão materialista e determinista da ciência.
    Segundo o astrólogo Stephen Arroyo “a única maneira pela qual Netuno pode ser inteiramente compreendido na sua essência é o da rendição à sua força, porque ela está, por definição e função, para além dos limites”. Então, como podemos acessar este arquétipo tão longe do alcance da lógica e do raciocínio? Abrindo mão de nossas percepções mentais e, de uma vez por todas, desenvolver nossa capacidade de intuir, sentir, imaginar, divagar e contemplar. Se, ao longo dos caminhos anteriores você conseguiu driblar este vasto mundo do inconsciente, pois necessitava manter o controle, agora seus medos e procrastinações irão voltar-se contra você.
  • Netuno é regente de Peixes, signo mutável do elemento Água que estudamos no Caminho da Lua. Sabemos que a sensibilidade emotiva permeia o arquétipo altruísta cristão representado por Peixes. Todavia, Netuno, assim como os oceanos, seus domínios, não admite forças antagônicas já que seu poder é tão absoluto quanto do nosso inconsciente. Se manter o controle pessoal nestes domínios é impossível, a melhor convivência é participar praticando a contemplação, a divagação ou a meditação onde podemos acessar e compreender este mundo simbólico. No entanto, mesmo que os oceanos e mares são predominantes na área total da Terra assim como o inconsciente predomina sobre o consciente, ainda insistimos em dedicar a maior parte de nossas vidas às demandas mentais. Por isto que os ciclos netunianos servem para alinhar a nossa rota rumo à Luz Primordial ou ao inconsciente coletivo de onde tudo veio, tudo foi criado e para onde toda a vida de encaminha após o ciclo karmico na esfera da Terra.
    Apesar de ser um astro transaturnino, ou seja, geracional por representar o tipo de aprendizado ou desafio que a humanidade enfrenta durante seu demorado trânsito por cada signo – aproximadamente 14 anos -, no momento do nosso nascimento Netuno encontrava-se presente em uma das 12 casas astrológicas e é a partir de um desdes 12 temas de nossa vida que poderemos entrar em contato com o arquétipo netuniano e sua transcendência, seus sonhos, fantasias, espiritualidade, mas também com nossas tendências para o escapismo, ilusões e desvanescimento. Desde 2011 ele encontra-se em Peixes, seu signo de regência e de compatibilidade integral com sua vibração energética. Como dizia o famoso pisciano Albert Einstein, “Deus não joga dados” ou, segundo a lei hermética da causa e efeito, “o acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida” que também corrobora com a sincronicidade junguiana e, em meio ao caos e desequilíbrio visível entre a Natureza e o Homem, o ciclo de Netuno em Peixes oferece a melhor alternativa para a atualidade na inserção da espiritualidade no mundo materialista determinista na forma do ativismo quântico fomentado pelo físico Amit Goswami que percebeu com clareza e demonstrou os paralelos entre a física quântica com os ensinamentos milenares sobre a Consciência e a espiritualidade.
    Netuno estará transitando por Peixes até 2026 em busca do sentido de unidade entre todas as criaturas vivas que ganha uma força descomunal nesta configuração celeste e já está dissolvendo a lógica racional dos outros signos mutáveis Gêmeos e Virgem e as verdades dogmáticas de Sagitário.
    O Caminho do Pendurado era anteriormente atribuído ao Elemento Água, Netuno está correlacionado a este arcano por analogia: o deus Netuno ou Poseidon, um dos irmãos de Júpiter ou Zeus segundo a mitologia greco-romana foi eleito deus dos mares e oceanos pelo próprio irmão. A simbologia do sacro-ofício dedicado ao silêncio e à inação são estados típicos da meditação ou do samadhi, condição dos místicos hindus em que os processos físicos são voluntariamente suspensos para desenvolver o senso de observação e contemplação. Podemos observar estes estados no arcano maior do tarot, o Pendurado. A carta do tarot é nitidamente dividida em três partes: na área superior, a cruz egípcia Ankh está invertida em meio a uma coloração verde clara representando o aspecto transcendente, protetor e afetivo da Luz Primordial. Os significados mais comuns da cruz Ankh estão ligados à vida eterna. Entretanto, seu formato também lembra o rio Nilo a partir da parte mais larga na forma oval que representa o delta fértil para a agricultura ao norte do Egito. Os braços da cruz representam a união entre o ocidente de um lado e o oriente de outro. Gosto muito deste significado pois o rio Nilo é fundamental à vida desde o Egito Antigo, assim como a Água é o elemento primordial para os alquimistas.
    A figura humana da carta está apoiada apenas por um pé na cruz envolvido por uma serpente, símbolo da morte e do renascimento como vimos no Caminho da Morte. A outra perna e o resto do corpo completam o formato de uma cruz sobre um triângulo feito pelos braços da figura, demonstrando a prioridade do karma (cruz) que bloqueia e impede o movimento expansivo e criativo (triângulo). Por isto que esta carta geralmente é interpretada comumente como “sacrifício”. No mundo onde vivemos, a prioridade é o movimento, o “fazer” em detrimento do “ser”, a ação e iniciativa são mais valorizadas do que a contemplação e a introspecção. A personalidade deste arcano me faz lembrar o deus nórdico Odin que, para alcançar o poder absoluto perante os outros deuses de seu panteão, precisava conhecer a magia do alfabeto rúnico. Para isto, teve que aceitar o desafio imposto pelo gigante Mimir: dependurar-se exatamente na posição que é mostrada na carta em sua Yggdrasil, versão nórdica da Árvore da Vida, mas com o adendo peculiar de ser impalado e com um olho vazado. Este foi o seu sacro-ofício para ascender nos caminhos da árvore Ygdrasil para alcançar a sabedoria das runas. Os pregos nas mãos e no pé remetem a Cristo Crucificado, cujo sacro-ofício simboliza a salvação da humanidade, mas seu significado foi deturpado pela maioria das religiões cristãs que gostam de impingir culpa decorrente dos “pecados” humanos e a consequente necessidade de “salvação” adotada pela igreja na forma de ofertar “perdão”, venda de indulgências e outras “caridades” que estão mais próximas a um comércio do que outra coisa.
    Os olhos fechados, o rosto inexpressivo demonstra a profunda concentração em meditação do ser, revela sua conexão entre seu chakra coronário diretamente com as profundezas da Terra numa inversão que nos remete à Unidade. A Terra e a serpente espiralada na região inferior e escura recorda os instintos e a origem de nosso poder e força vital kundalínica. Esta entrega absoluta à conexão direta entre os chakras raiz e coronário ou de união entre o céu e a Terra, nos remete à definição do inconsciente coletivo usada por Carl G. Jung:
    ...uma ilimitada vastidão, cheia de uma incerteza jamais vista, aparentemente sem interior nem exterior, sem acima nem abaixo, sem aqui nem lá, sem meu nem teu, sem bem nem mal. Este é o mundo da Água, onde toda a vida flutua em suspensão; onde se inicia o domínio do sistema simpático, a alma de tudo o que é vivo; onde sou individualmente este e aquele; onde experimento o outro dentro de mim mesmo e o outro experimenta a mim...Lá sou o objeto de cada sujeito, um processo totalmente inverso ao da minha consciência normal, onde sou sempre o sujeito que tem um objeto.”
    Mesmo que para nós ocidentais a situação do Pendurado soe anormal, difícil e desgastante, são estes momentos de inversão e incerteza que irão desenvolver nosso intelecto supramental e o poder objetivo por meio da própria intuição. Quando estamos perdidos nestes ciclos netunianos, acabamos por nos render ao karma quando fugir não funciona mais e é aí que descobrimos o que temos de melhor.
    O Caminho do Pendurado une a esfera da Mente (Mercúrio) à da Ação (Marte), priorizando a imersão nos nossos domínios mais profundos do inconsciente antes de tomarmos uma decisão ou atitude que afetará toda a estabilidade e a estrutura a nossa volta. Observe aqui uma mensagem e um aprendizado de extrema grandeza : de nada adianta pautarmos nossas ações e mudanças nos processos mentais apenas.

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