O Caminho da Vontade: Arcano Maior XI do Tarot de Crowley

 A Criatividade Supramental e a Dinâmica da Vontade dirigida pelo Self


Segundo o Corão, o velho Moisés precisou enfrentar provações penosas por causa desta fonte – que é o símbolo da força vital em incessante renovação como o relógio que nunca pára. Uma palavra não-canônica do Senhor diz: ''Quem está perto de mim está perto do fogo. Este cristo esotérico é uma fonte de fogo.” Carl Gustav Jung, 'Psicologia e Alquimia'
Wilhelm Reich definiu a libido em “O Poder do Orgasmo” como uma força intensa de desejo e realização. O barão Von Reichenbach, que entrou em contato com o conhecimento de Reich, fez algumas experimentações com eletricidade e eletromagnetismo e descobriu algo que ele chamou de “força ódica” - uma substância que estava por trás do magnetismo, presente em todo o universo, muito sutil e que poderia ser controlada com o poder da mente. Esta força ódica unida ao potencial de nossa kundalini é que define heróis e líderes como Hércules e nosso herói interno.
Nosso “hércules interior”, ou o arquétipo do herói, costumava demonstrar sua força geralmente fora de nós por meio do confronto, agressividade e excesso de autoritarismo. Isto foi antes de percorrer o Caminho do Pendurado que nos ensinou a introspecção profunda, sensibilidade e silêncio em seu sacro ofício na busca consciente deste poder inerente chamado kundalini ou força vital. Durante esta introspecção profunda no caminho anterior, a passividade meditativa deu ensejo ao reconhecimento de poderes além da matéria, derivados da alma ou da centelha que nos dá vida. Esta força ou energia vital é a prima materia dos alquimistas que pode ser colapsada e controlada por nossa consciência. Ela depende apenas da nossa intenção dirigida para nossa Vontade ou Thelema (vontade em grego). Mas esta intenção ou Vontade – note que fiz questão do “V” maiúsculo – deve obedecer ao nosso Self e a nossa programação dharmica evolutiva, não se trata dos caprichos do Ego como foi muito propagado em fórmulas mágicas ocidentais como a “Lei da Atração” ou “O Segredo”. Por isto que os ensinamentos do mago inglês Aleister Crowley agrupados no sistema filosófico que ele chamou de Thelema foram tão mal interpretados. O aforismo “Faz o que tu queres, há de ser o todo da Lei” foi, além de mal traduzido do inglês (whole of the Law significa o todo da Lei, não tudo da Lei), mal interpretado por aqueles que não tinham conhecimento prévio da Árvore da Vida, Magia e Alquimia.
A missão karmica daqueles que possuem o signo de Leão em destaque no mapa astrológico de nascimento é não se render às superficialidades da vontade egóica, mas se aprofundarem no auto-conhecimento, tornando-se criativos o suficiente para valorizarem seu “aurum nobilis” ou self quântico. As certezas, verdades e o instinto de propósito acabam fazendo com que a nobreza da personalidade se projete àqueles que estão ao redor, possibilitando o exercício da liderança e da criatividade circunstancial (rajas) e supramental (sattva).
É assim que o signo de Leão se destaca e chama a atenção de uma forma construtiva e evoluída. Foi assim que Hércules teve que enfrentar o terrível leão na cidade de Neméia em um de seus 12 trabalhos: nem os ruidosos aplausos dos habitantes da cidade que o recepcionaram felizes e aliviados com a presença de seu salvador podiam inflar o ego inseguro do herói mediante terrível provação. Despido de suas armas e apetrechos destruídos após o primeiro contato com a fera, Hércules teve que enfrentar o leão de igual para igual. E foi nessa hora que ele se deparou com um inofensivo leão comum.
Muitas vezes somos devorados e vencidos pelas “muletas” do nosso ego. “Você sabe com quem está falando?” é uma das frases preferidas daqueles que sucumbem a seu caótico leão interno, pois perderam-se de si mesmos, não sabem mais quem realmente são, perderam a conexão.
Numa sociedade altamente tecnológica, em que a liderança de um homem é medida por sua riqueza e seu poder, o preço frequentemente é o coração humano. Nesta fase de nossa evolução pessoal e planetária, o coração é o que mais carece de desenvolvimento e, conforme a Era de Aquário firmemente se enraiza na consciência do planeta, a função deste signo de polaridade, Leão, será assegurar que assim seja.” Astrologia e Mitologia Ariel Guttman e Kenneth Johnson,
Temporariamente, a fera satisfeita descansa à sombra, mas volta com o apetite redobrado. O apego a máscaras ou representações, armas fúteis da identidade acabam desvanecendo rapidamente e precisamos sempre de mais recursos para a segurança de nosso ego insaciável. Tudo isto se propaga em infinitas ondas de destruição, crises de identidade, depressão e, finalmente, autodestruição.
Por outro lado, a insegurança e a total negação do ego como veículo do nosso Self, também remete a um padrão autodestrutivo. Quando nossos medos e restrições se tornam tão pesados como o chumbo, temos que nos esforçar ao máximo para alquimizá-lo em ouro. A insegurança ou a desvalorização leonina sempre têm origem em alguma situação familiar ou infantil repressiva e limitadora. Um pai que não se esforçou o suficiente em apoiar ou aplaudir seu filho é uma delas. A ausência da nossa primeira figura de autoridade que geralmente é o nosso pai, cria um vácuo em nossa identidade e não temos o referencial de liderança, carisma e criatividade que todos os líderes deveriam ter. A busca desta identidade, às vezes, costuma ser muito penosa, cheia de dúvidas e decisões infundadas na Vontade pessoal. O exercício do autoconhecimento, especialmente pelo estudo da Astrologia, é essencial e revelador para dar início ao processo de individuação que um famoso leonino desenvolveu a partir de suas experiências pessoais, vivências e estudos: Carl Gustav Jung.
Tens de amar o teu próximo como a ti mesmo” Assim ensinou o mestre e avatar da Era de Peixes, Jesus. Está muito claro que a auto-estima é a base do surgimento da possibilidade de transmitir este amor a outra pessoa. A auto-estima é outro tema do arquétipo de Leão. Quando você descobre que é parte da criação divina com um propósito muito bem definido no conjunto infinito do Cosmos, você começa a entender seu valor, sua motivação e alegria de viver. Você começa a se amar e a evitar tudo aquilo que seja auto-destrutivo e degradante. E é assim que você começa a amar o seu próximo, ou qualquer ser que resultou da criação divina! Você ama, protege e busca a felicidade para o outro como se fosse para você mesmo.
O arcano 11 do Tarot de Crowley mostra perfeitamente este estado de Amor e comunhão com o Cosmos. Interessante notar que, mesmo se tratando de um signo do elemento fogo, portanto de polaridade Yang, o arcano atribuído a Leão apresenta uma mulher nua em uma espécie de êxtase sobre um leão de sete cabeças. Trata-se de Babilônia compondo uma figura que representa a Besta do Apocalipse bíblico. Antes de nos estendermos sobre esta escolha de Crowley e Harris para figurar no arcano, observemos seu design mais antigo e tradicional como no caso do tarot de Rider-Waite.
A presença feminina também foi escolhida, mas de uma maneira muito diferente: uma donzela vestida tentando fechar a boca do leão. Mesmo tendo o símbolo da sabedoria infinita, assim como no arcano do Mago deste mesmo tarot, percebemos claramente que a mensagem do arcano se pauta exclusivamente no autocontrole, reflexo claro do repúdio da sociedade com relação à individualidade, especialmente, no que diz respeito à mulher. Revelar sua Vontade e propósito essencial de realização, reconhecer um “deus”, uma força poderosa e curativa demanda muita independência, o que não é interessante para o “status quo”. Mesmo assim, hoje ainda existe uma grande maioria dependente seja das orientações religiosas, governamentais ou dos veículos de comunicação que ditam o que pensar, vestir, comer etc. O poder vigente não quer que nos manifestemos a favor de nossas consciências, mas que sejamos robóticos como o gado indo para o curral, consumistas e crentes na mídia. Calamos e controlamos nosso leão interior, solapamos nossa libido, nossa energia vital e adoecemos cada vez mais, o que alimenta o monstro da Matrix que nos envolve e hipnotiza. Afinal, se adoecemos, contribuímos para a riqueza descomunal das indústrias farmacêuticas e ficamos à mercê do determinismo científico que necessita rotular e condenar tudo aquilo que foge da “normose”.
Esta energia feminina intuitiva e dinâmica na carta de Crowley está em simbiose com o leão de sete cabeças, mas a rédea mostra o controle pessoal sobre os instintos sem a supressão que vimos no mesmo arcano do tarot Rider-Waite. Esta simbiose entre o feminino (kundalini, libido, energia vital) e o masculino (intenção, disposição, impulso) constitui a Vontade que deve ser aliada a nosso Self Quântico na superação da superficialidade do Ego. Veja que algumas cabeças do leão sublimaram suas máscaras e tornaram-se figuras mais diáfanas na parte inferior, abaixo do leão, dedicadas a um propósito mais sutil e unificado. Afinal de contas, a simbiose entre Babilônia e o leão de 7 cabeças resultou na elevação da energia kundalínica criativa até o topo da carta, fundindo-se diretamente com a Luz Primordial, num êxtase que pode também ser considerado um salto quântico criativo, ou seja, quando exercemos a criatividade fundamental (sattva) para nos tornarmos mais conscientes do nosso propósito essencial, dharmico.
Agora vamos entender a escolha de Aleister Crowley e Frida Harris pela representação da figura apocalíptica de Babilônia montada no leão de sete cabeças. Imagem chocante para a Igreja, pois representa o fim da era cristã, ou da Era de Peixes. Os sinais do apocalipse cristão não indicam o fim do mundo, mas o começo da Era de Aquário, quando a culpa, o fanatismo e a restrição darão lugar para o entendimento filosófico e científico da nossa energia vital por meio da ciência quântica. Nossa força ódica, assim como a matéria escura que envolve o universo são compostos de substância subatômica, portanto têm comportamento quântico. Deus não será apenas uma questão de fé, mas um entendimento científico. Estamos saindo das trevas deterministas e apocalípticas onde a morte é um fim em si e começando a compreender a manifestação do invisível e transcendente.
O caminho horizontal entre a esfera marciana da Ação e a jupiteriana da Realização é dedicado ao estudo deste arcano e seu arquétipo Leão. Ele está acima da esfera Self, regida pelo Sol – o centro da Árvore da Vida – astro cuja energia é totalmente compatível com o signo de Leão. Esta afinidade juntamente com sua posição simboliza a importância em contatarmos nosso Self antes de nos submetermos aos nossos instintos, iniciativas ou intenções da esfera da Ação para atingirmos a elevação expansiva da consciência na esfera da Realização.
A serpente com a cabeça de leão é a mesma que vimos na carta relativa ao caminho da Torre, o primeiro caminho horizontal paralelo a este que estamos estudando. Note que o caminho da Torre está abaixo da esfera do Self e indica o primeiro despertar da nossa energia vibracional que rompe com condicionamentos. Os condicionamentos bloqueavam nossa criatividade e nos impediam de manifestar o Self sem as máscaras do Ego. Mas é no caminho da Vontade que esta energia continua seu movimento de transformação e adiciona a intenção à energia gerando outro patamar mais consciente e o poder sobre nossos instintos que nos conduz à independência criativa e total manifestação do Self Quântico.
Com sua mão direita, Babilônia – mulher consciente do poder de sua Vontade, donzela que se transformou por meio do contato com sua sexualidade – segura a luz radiante, o fogo transformado em energia pura, a iluminação, o insight criativo do Self Quântico. Os dez raios e as dez serpentes que dali se projetam transmitem a mensagem do aprendizado que está por vir: a consciência e a compreensão da transmutação karmica, os princípios herméticos da vibração e do ritmo – nada está parado, tudo se manifesta por oscilações compensadas – e a descontinuidade quântica: a Fortuna ou Roda da Fortuna.




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