O Caminho da Torre : Arcano Maior XVI do Tarot de Crowley

 

A coragem de Romper Condicionamentos


A partir do momento em que o indivíduo reconhece sua Estrela única e integral, livre de medos, máscaras e condicionamentos, além de renovado em sua auto-estima e em seu senso comunitário, ele está pronto para romper qualquer tipo de padrão e conexão incoerente com seu novo Self. Este é um dos caminhos que sugere um salto quântico do Ser que deixa para trás velhas identidades, pois a coragem marciana não permite dúvidas e vai direto ao assunto.

Marte é o nosso poder de decisão, é a força impulsiva e instintiva que empregamos para conquistar o que queremos, é a nossa capacidade de lutar e competir. Por reger dois signos, Áries e Escorpião, sua força impulsiva pode ter duas qualidades: o arrebatamento instantâneo de Áries ou a estratégia calculada e organizada de Escorpião, que encontramos no livro “A Arte da Guerra”. Guerra é um assunto sempre ligado a Marte, afinal, ele é o Deus da Guerra da mitologia greco-romana, mais conhecido pela sua força bruta, coragem, além da atração por conflitos e pela bela Afrodite, sua amante mais famosa. Seus pontos fracos eram a diplomacia e o intelecto, pois o instinto de sobrevivência não permite desvios em seu imediatismo.

Marte corresponde ao sistema límbico, parte de nosso cérebro responsável, dentre outras funções, pelos impulsos de auto-defesa e instinto de sobrevivência. Planeta regente de Áries, o primeiro signo do zodíaco que correspondente à cabeça no corpo físico, por isto é fácil de entender sua conexão com um órgão localizado no crânio. Por outro lado, energeticamente falando, a força e o impulso de Marte também estão ligados ao chakra muladhara (raiz) localizado na região sacroccocígea cuja função também aplica-se à sobrevivência, ao instinto de preservação e de procriação, pois este chakra está conectado às nossas gônadas.

A sexualidade é outra ação instintiva de Marte, afinal o ato sexual é considerado por muitos uma luta e, dependendo do caso, é tratado criminalmente como um ato de violência. Desta forma, Escorpião, como outro signo regido por Marte, está arquetipicamente associado ao sexo, às paixões, obsessões e à morte. Uma das definições de orgasmo é “petit mort” em francês (pequena morte) não deixando dúvidas para um dos significados mais apropriados a um dos assuntos “tabu” de Escorpião: a morte não é o fim de tudo, mas a transformação, a reciclagem, a passagem alquímica em breves momentos de perda total de controle pessoal quando nos conectamos com o “outro” através do sexo para encontrarmos a nós mesmos. Isto é mais evidente através do trabalho tântrico e meditativo da subida da Kundalini, nossa força vital que equilibra emoções, pensamentos, instintos até o mais profundo auto-conhecimento e reconhecimento de nosso self quântico e entendimento do nosso karma.

Agora chegamos ao refinamento e à valorização do potencial mais elevado de Marte. É que podemos transformá-lo em nosso aliado quando o tornamos a base de nossos impulsos estratégicos rumo ao auto-conhecimento energético no trabalho de elevação da Kundalini. Tradicionalmente, este planeta é interpretado como o potencial viril no mapa masculino e, no mapa feminino, a expectativa de virilidade de seu companheiro, mas sabemos que o constante movimento cíclico planetário que nos oferece constantemente todos os tipos de possibilidades, não condiz com conceitos estanques do determinismo materialista!

Já apontamos que Marte no nosso mapa astrológico representa o potencial de ação, reação, estratégia, impulso e coragem. Mas cada potencial, por mais cristalizado ou reprimido que possa parecer é passível de se submeter a ciclos karmicos que podem gerar ondas de possibilidade e, desta forma, desenvolvem a oportunidade do salto quântico, aproveitamento energético e vital a fim de romper barreiras e estimular nossa glândula pineal nos tornando iluminados e intuitivos ao invés de apenas instintivos e reativos.

Aqui vai um bom exemplo de possível repressão ou estagnação marciana: Marte no signo de Touro recebendo uma quadratura – ângulo de 90º desafiador – de Saturno em Leão. Observe que tanto Touro quanto Leão são signos fixos, ou seja, tendem à concentração e à imobilidade. Saturno em aspecto muito desafiador também pode retrair e retardar todas as ações instintivas da pessoa, mas mesmo assim continua sendo um indivíduo com seu sistema límbico, com seu chakra raiz e com fatores ambientais ou temporais que demandarão alguma espécie de reação, defesa ou impulso. Caso ele consinta com a repressão e o medo saturninos, ele enfraquecerá até a morte – literalmente, pois sua energia vital e kundalínica não irá durar sem o devido cultivo. Se, após extensos períodos de repressão, auto-castração e falta de auto-confiança ele não resistir e explodir, o “tiro sairá pela culatra” e os danos poderão ser irreversíveis. Mesmo assim, ele pode se tornar um observador quântico através do auto-conhecimento astrológico reconhecendo que seu arquétipo pessoal representado pelo Saturno em Leão pode ter sido uma figura paterna altamente limitadora ou ausente, por exemplo, e também por meio de técnicas terapêuticas adequadas ao seu perfil, estimulando seu corpo físico -Touro é um signo de Terra, portanto o corpo físico é o ponto de partida – até se equilibrar, aproveitando a persistência típica taurina.

Os trânsitos de Marte são relativamente rápidos pois sua revolução em torno do Sol tem duração de quase dois anos, apenas. É muito importante observá-los sobre nossos mapas de nascimento, pois seus aspectos com planetas natais irrompem em fatos e acontecimentos como se fossem chamas de um palito de fósforo sendo riscado. São aqueles momentos em que nos sentimos mais bem dispostos ou corajosos para decisões, ou riscos de enfrentar desafios. Entretanto, seus aspectos também podem provocar impulsos destrutivos como acidentes ou decisões precipitadas quando estamos sob pressão ou ansiosos. O simples fato de conhecer estes ciclos tão rápidos e bastante frequentes nos proporciona um panorama privilegiado como um general frente a um campo de batalha calculando qual a melhor estratégia e o melhor momento para o ataque vitorioso.

A Torre é nosso primeiro caminho horizontal na Árvore da Vida. Esta afirmação já é suficiente para compreendermos o quanto é importante o equilíbrio e a estratégia nas nossas ações e decisões, pois os caminhos horizontais da Árvore da Vida promovem o equilíbrio das duas esferas localizadas em cada extremidade: a Mente e o Sentimento, no caso do caminho em questão. Não se trata de um equilíbrio suave, mas do resultado de rompimentos e da destruição de padrões e condicionamentos mentais (Esfera da Mente – Mercúrio) e emocionais (Esfera do Sentimento – Vênus). Após os caminhos anteriores, em especial os caminhos do Aeon e da Lua, tivemos que avaliar e flexibilizar nossas ideias, além de entrar em contato com nossas sombras e conteúdos inconscientes que podem nos conduzir ao pânico ou ao escapismo, com apegos a valores e padrões ilusórios. O caminho da Torre encerra o triângulo inferior da Árvore da Vida com o desafio de deixar os condicionamentos e apegos transitórios e terrenos para trás.

O arcano 16 na versão de Crowley e Harris demonstra a destruição de formas e padrões existentes por meio do fogo, o que remete ao caminho do Aeon, também representado pela transformação, avaliação a fim de adentrarmos em um novo nível intelectual superior e evolutivo. Mas esta transformação tem que começar pelos fundamentos tal qual vemos na figura do arcano: o deus romano da morte Dis emitindo labaredas que fulminam a Torre pela base enquanto figuras geométricas despencam do topo. Estas figuras geométricas e cristalizadas são seres humanos que, em busca da perfeição fútil e da divindade que vem do alto e de fora acumulam dualidades que só são resolvidas pela ação da Torre, que une os extremos como o Yin com o Yang. Desta maneira é que se chega à verdadeira Perfeição de Shiva, ou seja, o Nada. Shiva é o deus hindu da morte e da destruição e o olho do alto no arcano é atribuído a ele. Segundo a tradição, quando o olho de Shiva se abre os opostos se reintegram e o Universo se reduz ao Nada.

A serpente com a cabeça de leão e a pomba com o ramo de oliveira resumem os métodos criativos e evolutivos para os instintos, impulsos e para a sexualidade, ou seja, o Marte pessoal de cada um: a elevação da energia kundalínica através dos chakras sempre representada como a “serpente de fogo” por meio de práticas meditativas tântricas e a pureza, além da abnegação como o caminho espiritual.

Além de estar ligado mitologicamente à Shiva, o olho na parte superior também pode representar o olho de Hórus, arquétipo que representa a Nova Era, o Novo Aeon e demonstra que o caminho da espiritualidade não é suave, mas cheio de desafios e lutas assim como as principais literaturas esotéricas de auto-desenvolvimento como o Bhagavad Gita. Outra interpretação para o mesmo olho é se tratar do “terceiro olho”, a visão do intelecto supramental conectado ao chakra frontal no centro da testa, um pouco acima da divisão entre as sobrancelhas. Esta visão é intuitiva, perceptiva e conectada com a glândula pineal, ou seja, nos faz ver além da dualidade materialista, além de todos os símbolos e formas em busca do significado mais profundo de todas as coisas. É o olho que se volta para dentro e consegue ver a divindade sem precisar de dogmas, procedimentos e mestres para indicar um caminho enganoso, dependente, tortuoso e sujeito ao desabamento e caos. Depende de nosso livre arbítrio, de nossa lucidez, discernimento e independência se o Caminho da Torre nos conduzirá à libertação ou à dor.

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