O Caminho do Diabo : Arcano Maior XV do Tarot de Crowley

 Instintos a Serviço da Criatividade

 Muitas são as festividades entre as mais diversas culturas e religiões que acompanham o solstício de inverno (Hemisfério Norte) ou verão (Hemisfério Sul) quando se inicia o trânsito do Sol pelo signo de Capricórnio. Tanto a tradição cristã quanto a pagã festejam o nascimento de um deus ou de um salvador. É o começo de uma jornada em que o inconsciente individual irá encontrar o inconsciente universal. Quando um deus manifesta-se na Terra, ele representa a aproximação entre o micro e o macrocosmo, entre o “eu sou” individual com o “Eu Sou” cósmico resultando em senso de propósito e objetivo. O signo do elemento Terra e de modalidade cardinal é o mais objetivo e planejador do zodíaco. Simbolizado pela cabra maltesa que escala montanhas altas e escarpadas sem fraquejar, o instinto e a perseverança deste signo projetam sua Vontade rumo ao poder supremo. Entretanto, a ambição desmedida e a sedução do poder podem ser resultados do instinto capricorniano mal direcionado, por isto é importante compreender este arquétipo através dos seus mitos. A cabra-ninfa Almatéia e seu irmão Pã representam a síntese deste arquétipo. Pã é o fauno que, como todo sátiro, não conhecia limites para seus desejos e instintos, especialmente, os sexuais, o que nos faz lembrar da origem de nossa energia criativa e sua fonte primária em nossa sexualidade – a Kundalini. Almatéia, metade cabra, metade peixe, já é conhecida por ter alimentado Zeus fora das vistas de Saturno, o pai que devorava os filhos com medo que os mesmos pudessem lhe roubar o poder (ver o Caminho do Universo). Ao tentar fugir de Tifão, Pã mergulhou no Nilo e seu corpo que estava submerso transformou-se num corpo de peixe enquanto sua cabeça permaneceu como a de um bode. Estas metamorfoses nos lembram a sublimação das energias instintivas como desejos, obsessões e medos na tônica arquetípica do universo pisciano: o perdão, o sacro-ofício, a transcendência acompanhada pelo amor incondicional.
 Os joelhos proeminentes das cabras maltesas e correlacionados a Capricórnio no corpo físico sofrem quando a resistência a um poder maior que tentamos não considerar quando nossa ambição ou obsessão por chegar aos fins que justificam os meios, pois não se dobram diante da grandeza e da altura do Cosmo e da Luz Primordial que nunca seriam atingidas apenas pelas vontades individuais, mas pela união de todas as vontades em torno de um mesmo objetivo maior e mais profundo.
 Almatéia ajudou na destruição da perpetuação do poder tirano e absoluto de Saturno para que Zeus dividisse com outros deuses irmãos o comando do Universo. Saturno é o astro regente de Capricórnio, em vista da semelhança de suas energias e de sua “sombra”: obsessão pelo poder, medos que o transformaram em um devorador compulsivo dos próprios filhos. O poder demanda responsabilidade e maturidade, esta é a grande lição dos mitos e das qualidades potenciais de Capricórnio e de seu regente. Saturno, especialmente, é o astro que impõe limites nos desejos compulsivos como ele mesmo fez com o pai, Urano.
 Lembrando que nem tudo são trevas, afinal, o solstício de Capricónio representa renascimento, por isto as festividades voltadas à esperança e à criatividade e fartura nas épocas vindouras. A troca de presentes da festividade tradicional pagã Yule que foi adotada no Natal representa que nada é de ninguém, a ninguém pertence os frutos da Terra ou as obras de Deus, assim como a morte e o renascimento de um deus significam a transitoriedade de qualquer símbolo de poder e 'status'.
Capricórnio pode influenciar na nossa vida de variadas maneiras assim como parte da fórmula alquímica do nosso mapa astrológico, presente nas casas ou envolvendo planetas sob sua influência direta material e cardinal onde podemos direcionar nossa força criativa, construtiva com responsabilidade e maturidade, além de discernimento mental. Ao identificarmos e localizarmos o(s) tema(s) dominados por Capricórnio ou Saturno devemos ter em mente a totalidade dos arquétipos representados pelos irmãos Pã e Almatéia: o impulso do desejo e da ambição voltados para a construção ou nutrição de um poder acima do plano físico e individual.
O Caminho do Diabo percorre a distância entre a esfera da Mente e a do Self. O nome deste arcano deriva das conexões arquetípicas de Saturno (Seth-Satã) e os conteúdos da mente consciente é que codificarão a função criativa dos instintos inconsciente e impulsos construtivos que formarão o Self ou a Essência. Pensamentos, código de ética, metodologia funcional, sistemas de estruturas irão compor uma das múltiplas possibilidades do Self Quântico.
O Diabo também nos remete ao “lado escuro” e sombrio do arcano, assim como Seth tentou matar Osíris, seu irmão, ou Satã em sua tentativa de corromper Jesus. Ambos, Seth e Satã representam este lado sombrio da personalidade que quer bloquear a Luz, corromper o Self e manter o ser humano preso a vícios e desejos em um nível mais físico. Vencer o Diabo, percorrendo seu Caminho significa renunciar e libertar-se da máscara mais cristalizada do Ego: o apego ao 'status', títulos de poder, cargos e outras conquistas mundanas.
Ao contrário dos tarots tradicionais cujos desenhos do arcano 15 revelam seres assustadores e típicos do estereótipo popular do diabo, Crowley idealizou Pã estilizado como uma cabra montesa sorridente e nada assustadora. Sua coroa de uvas e os chifres espiralados lembrando nossa galáxia ou a cadeia do DNA exprimem o poder de criação e de geração a favor da nossa força vital. Atrás da cabra, vemos um falo que faz a conexão entre a Terra e a Luz Primordial da Árvore da Vida “a energia criativa em sua forma mais material” (Livro de Thoth, Aleister Crowley). Nos testículos, vemos formas femininas, masculinas, inclusive um indivíduo semi-caprino, além da divisão celular e seus pares de cromossomo. A elevação da kundalini neste arcano tem o significado de união das dualidades a fim de produzir Vida. É o puro poder criativo alimentando nossa vitalidade conectando-nos com o divino.
O terceiro olho da cabra/Pã demonstra que superar nossa sombra como desejos puramente materiais apenas vistos através de nossa visão carnal limitada tem o mesmo significado do renascimento de Osíris, frustrando a tentativa de assassinato de seu irmão Seth, ou da superação de Cristo perante as tentações satânicas: nosso salto quântico rumo à luz essencial individual do self em equilíbrio com o “Eu Sou” Cósmico.  

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